Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
Quantas vezes aqui vim...

   

 

Quantas vezes aqui vim e ela continua igual, imutável no seu etéreo movimento. Quem mudou fui eu e as situações, ambas diferentes em cada segundo, e mais diferentes ainda passado este meio ano.

 

Quantas vezes aqui vim, sob quantos diferentes sóis... Normalmente evito este astro invernal, o frio que se entranha, a luz que nada aquece. Já os quatro sóis do ano marcaram a minha sombra nesta calçada de paralelos, banhando-me a luz da lua algumas vezes mais. Mas agora, enquanto deambulo, lembro-me duma vez que o sol de verão aqui me queimou a pele. Agora faz mais frio, estou mais escondida no meio da roupa, chove um pouco, a sombra já não é tão marcada e não são as duas entrelaçadas desse outro sol.

Quantas vezes aqui vim, sob quantos diferentes sóis, com quantas diferentes companhias... A rua está mais populada que o usual, mais gente procura as lojas por entre as iluminações ainda apagadas. Evito a época também pela quantidade de gente, mas ando sozinha como há muito não fazia. Já tive com família, amigos, conhecidos e com uma mistura de todos, umas vezes sentindo-me mais acompanhada que noutras. Com cada um mudo o trajecto, pois mudam os gostos e eu sigo-os. Nesse Verão também me deixei levar pela mão, pelas preferências da outra sombra. Hoje ando só por entre a multidão, portanto guiam-me as minhas, mas as passadas convergem para as de outrora, como os gostos de ambos convergiram. Os mesmos passos pelas mesmas ruas, pelas mesmas livrarias, por entre os mesmos edifícios, são os perfeitos ecos contudo soam com metade do fulgor do bom tempo, a uma só voz.

Quantas vezes aqui vim, sob quantos diferentes sóis, com quantas diferentes companhias, sob quantos diferentes humores... É tempo de risos e alegria, de prendas e euforia para o punhado de gentes que me empurra. Eu recordo outro tempo. O sol aquecia e eu ficava quente sem a sua ajuda. Não estava plenamente feliz, pois no intervalo das carícias pensava nos passeios futuros em que não as teria. Agora, o sol mal aquece e eu também não deixo que o faça. Olhando um pouco os teatros espalhados, os cafés imortalizados e o rio calmo ao longe, nada tenho que interrompa o pensamento. Não sou plenamente infeliz, pois penso no quão bom foi sentir esse sol na pele. Olho tudo tentando recuperar fragmentos desse tempo, encontro alguns - sinto-me mais calma - mas os fragmentos não passam de cacos - sinto saudades -  cacos estes que recuso deitar fora - sinto-me só.

Quantas vezes aqui vim, sob quantos diferentes sóis, com quantas diferentes companhias, sob quantos diferentes humores, com quantas diferentes idades... As visitas foram sempre diferentes, aquela há meio ano foi especial como é a de agora, as duas mais antagónicas que se consegue. Se envelheci? Nem assim tanto. A eternidade de tempo passado foi pouca, passou muito curta, mas senti-a mais que longa. Sei que mudei, não amadureci assim tanto, sobretudo amargurei.

   

   

Escrito depois de andar a deambular pela baixa lisboeta no mês passado

   

  

   

        By Sophia 

   

 

 

"Now I'm sitting here
Like we used to do
I think about my life

And now there's nothin i won't do
Just for one more day"

 


música: Everytime - Simple Plan
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publicado por **** às 00:18
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1 comentário:
De V.A.D. a 4 de Janeiro de 2008 às 03:08
Os trajectos que se voltam a percorrer, nas mesmas ruas tão iguais e tão diversas, o tempo que passou deixando marcas indeléveis, a nostalgia parecendo afundar a existência num agitado lago profundo, frio e sem luz, num contraste gritante com a calma do rio à distância... A solidão surda num evidente confronto interior com os ruídos da horda...
Amadureceste, sim... Não é na facilidade que se aprende e a amargura é um mero efeito colateral, que se irá desvanecer, pois que é certo que o tempo tudo cura...

Desejo-te uma noite cheia de serena alegria...!

Um beijo... :-)


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