Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2008
O despojo dum sonho

 

 

      Acordei sobressaltada já a noite tinha deixado de ser menina. O coração batia audivelmente, a caixa torácica arfava, os lençóis de algodão estavam remexidos, suores frios escoavam-se pelos esporos. Reparei que não respirava desde o sobressalto que me tinha tirado todo o ar dos pulmões, à força como uma pancada seca nas costas, fi-lo e senti um arrepio por toda a espinha, percorrendo cada uma das sessões da base da coluna até ao cervix.

     Virei-me de lado, abracei-me, cerrei as pálpebras com força e concentrei-me em adormecer, focando a minha atenção, a minha mente, o meu ser só nesse acto, nesta tarefa, nesta acção. Permaneci estática e contraída, gelei por completo, despertei todo o corpo, fiquei em vigília, chamei uma persistente dor-de-cabeça - mal dormi.

 

      Ao amanhecer tomei um duche demasiado longo, demasiado quente, demasiado ausente. Sei que me estou a atormentar ao tentar encher o consciente com tarefas inconscientes, sei que ainda estou sobressaltada, mas nego-o. Nego-o pois bastaria isso para não resistir a procurar no meu próprio cabelo - agora esfregado, lavado, enxaguado de forma quase obsessiva - uma réstia do reconfortante cheiro que senti naquele instante ao acordar e que me sobressaltou, o perfume dos teus dedos finos há tanto ausentes, deixado como se tivesses realmente estado deitado comigo na escuridão do quarto, a brincar com as minhas ondas de cabelo caoticamente espalhadas pela almofada. Nego-o, mas não deixo de estar sobressaltada, nem sequer de instintivamente saber que o senti, que foi tua a fragrância que ficou como despojo dum sonho - mesmo que nunca os tenha...

 

   

           by Sophia

 

 

 

"Just hold me tight and tell me you’ll miss me
While I’m alone and blue as can be
Dream a little dream"

 


música: Dream a little dream of me - Louis Armstrong
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publicado por **** às 01:07
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6 comentários:
De V.A.D. a 25 de Janeiro de 2008 às 01:26
Os sonhos são um escape para as ânsias, para os temores e para os desejos, o inconsciente manifestando-se em visões, toques, cheiros e sensações que em quase tudo reproduzem o realismo da vigília... E depois, fica a inquietação resultante de uma espécie de dúvida latente, a afirmação do impossível lutando contra a negação óbvia...

"Há sonhos que parecem realidade, há realidades que parecem sonhos..."

Desejo-te uma noite agradabilíssima, sem sobressaltos mas cheia de sonhos bonitos...!

Um beijo... :-)


De **** a 25 de Janeiro de 2008 às 02:01
"Os sonhos são um escape para as ânsias, para os temores e para os desejos"

Este comentário tão freudiano deixou-me por um lado feliz, por outro lado um tanto triste. Feliz porque leio sempre sofregamente as palavras que escreves. Triste porque realmente se o sonho não me lembro nunca deles.
Não é que o meu inconsciente não seja realmente efervescente como teimosamente é o meu consciente, simplesmente arranja outras formas de me importunar... O lado negativo é que invejo os que têm essa capacidade, gostava de os poder sentir, o positivo é que também não tenho pesadelos...

Por isso achei tão estranho acordar daquela maneira e ter essa sensação imediata de sentir aquele cheiro por toda a cama, nos cabelos, no corpo.

Enfim... fico-me pelos sonhos acordada (esses compensam o melhor que podem a falta dos outros) e contento-me a ouvir o dos outros.

Bons sonhos para ti
E beijos


De Ana M. a 25 de Janeiro de 2008 às 12:12
É pena que o teu subconsciente não seja fervorosamente paralelo ao teu consciente. É, assim, impossível sentires-te inteira - ficas-te sempre pela metade.

Os sonhos são apenas isso, sonhos. E enquanto sonhar a dormir e viver acordada sou feliz.

Beijo *


De Sophia (do Flip Side) a 26 de Janeiro de 2008 às 00:44
Realmente não me consigo sentir inteira sem sonhar, mas mesmo o meu consciente consegue trabalhar para quebrar qualquer tentativa de unidade.
Quanto ao "ficas-t sempre pela metade" é verdade, lembrou-me um poema do fernando Pessoa:


" Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade,
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço-

Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além...
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem."


Espero que realmente o sejas feliz, mesmo muito feliz.
Beijos


De SaNdRiT@ a 25 de Janeiro de 2008 às 19:09
achei este pequeno texto...algo de excelente.
"Sei que me estou a atormentar ao tentar encher o consciente com tarefas inconscientes...(...)..." noa sei oque significa para ti mas para mim, significa todo o meu presente*
obrigada por esta leitura.


De Sophia (do Flip Side) a 26 de Janeiro de 2008 às 00:48
Acho que para mim também simboliza um pouco o que se passa agora, uma tentativa frustada à partida de fuga aos pensamentos que quero ignorar a todo o custo.

É a minha vez de dizer:
MUITO obrigado pela tua leitura

Beijos


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