Sábado, 15 de Março de 2008
O Momento do Reencontro (2 de 2)

(...)

 

Sempre, volto à superfície sempre. Não abro logo os olhos. Este mundo invade-me, o Meu deixa-me. Há salpicos, o som entra-me pelo ouvidos, sacode-me a alma, o sol queima-me a pele, deixa a sua marca sem eu o querer, a diferença de temperatura volta, gela-me o sangue. As pálpebras permanecem cerradas. Deixo-me flutuar. A água agita-se reclamando da deslealdade, do abandono, ela como amante traído, eu como fugitiva forçada. As pestanas quedam-se juntas. Não queria sair, quero lá estar e quererei lá permanecer.

Sempre, sempre quererei voltar. Sinto falta daquela solidão reconfortante, desse preenchido vácuo, daquele outro mundo de silêncios e ausências. Toda a calma me fascina, assim imagino a morte. Mas o mundo dos vivos chama-me, domina os sentidos, reclama o meu regresso, exigindo não só o corpo, mas arrancando também a alma. Levo com salpicos da prima, gritos do irmão, risos do tio e com o murmúrios do desconhecido. Passou o momento sem que ninguém, se não eu, reparasse. Debaixo de água sinto que posso deixar o meu corpo para trás, no entanto sinto-me mais eu que nunca. Todavia o momento acaba, é a pior coisa no fascínio do efémero, a imperfeição que dá beleza ao momento. Por enquanto faz-me companhia a nostalgia e conforta-me a esperança dum novo momento do reencontro.

 

Não sou a maior apaixonada pela praia, mas amo o mar.

O momento do reencontro com a água é sempre o mais esperado.

É um instante em que consigo deixar tudo de lado e, no entanto, sentir que nada perdi.

É uma das poucas coisas que me consegue acalmar, que me permite abandonar o pensamento, que me liberta dos aguilhoamentos da vida.

 

Mesmo que seja só por alguns minutos, sinto-me sossegada enquanto cada um dos meus terminais nervosos sente a pressão da água a acariciá-lo, enquanto o peso do meu cabelo negro deixa de estar sobre os meus ombros, enquanto as vozes internas e externas são abafadas pelo elemento.

 

 

By Sophia

 

 

"Life keeps tumbliing yout heart in circles

till you... let go (...)

Now you're out there swimming

Now you're out there spinninng

In the deep... In the deep..."

 

música: In the Deep (Bird York)

    http://youtube.com/watch?v=YbQPxJ10KWs&feature=related

     



publicado por **** às 20:20
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2 comentários:
De V.A.D. a 16 de Março de 2008 às 23:11
O regresso, ainda que fugaz, ao elemento primordial, exerce uma fantástica acção sobre as zonas mais arcaicas do cérebro, as memórias antigas da vida no mar sobrepondo-se à realidade do solo firme, o isolamento num mundo simultaneamente adverso e familiar trazendo uma serenidade inigualável...

Magnífico, o teu texto!

Desejo-te uma óptima noite e uma semana agradabilíssima!

Um beijo e um enormeeeeeeeee sorriso... :-)


De Sophia (do Flip Side) a 17 de Março de 2008 às 01:58
"o isolamento num mundo simultaneamente adverso e familiar trazendo uma serenidade inigualável" - cada um dos elementos tem o seu encanto especial, sendo ora agradáveis ora repugnantes, contudo na água isto é especialmente tangível.

Pena que essa "serenidade inagualável" seja tão fugaz...

Muitos beijos e boa noite



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