Domingo, 30 de Março de 2008
Antiquitera (X)

 

    "O Sol ia-se recolhendo para lá do remoto horizonte, onde os marinheiros lhe confiavam a sua vital orientação, a inclinação dos últimos raios do dia acentuando-se para lá do corrupio do porto, entrando num feixe que se estreitava pela janela ocidental da espaçosa sala, desenhando anárquicos padrões nos grânulos cristalinos do mármore do pavimento, pintando em tons de laranja o fino perfil das partículas em suspensão no ar e reflectindo-se nas novas curvas e contracurvas que iam surgindo pela minha mão, na estreita superfície dum pequeno ponteiro. Por uma tarefa que, como solitário propósito, tinha o adiamento duma inevitável conclusão que o meu íntimo repudiava, os movimentos delicados da aguçada ponta em bisel do elegante buril deixavam adivinhar na prata a silhueta duma lua nos braços de Selene, como já se delineara o esboço dum sol seguro por Hélio sobre a cabeça e como se iria traçar outra elaborada figura na platina do terceiro ponteiro do mostrador principal do engenho. A falta de luminosidade fez-me pousar o trabalho. Levantei-me e dirigi-me a um estreito armário de madeira nubiana que abri com a ajuda de uma minúscula chave de ferro trazida dos orientes e sempre mantida escondida nas abas do manto. Forrada por papiros e algumas tabuinhas, destacava-se ao lusco-fusco uma caixa de madeira, nos veios da qual se imortalizara um bélico bailado de monstros marinhos e uma pequena bolsa de linho tingido a carmesim. Hesitando por um instante em que ia escurecendo, deixei cair para a palma aberta, num único gesto, o anel guardado no tecido. Distraí-me com peso do gélido metal, fazendo-o girar por entre os dedos, um antigo hábito regressando, reflexivo. Tremi com fardo das revelações inscritas, a imensa carga que me fez trocar o seu familiar toque pelo humano.

    Ao som abafado das solas dum par de sandálias a descer pelos degraus da imponente escadaria que conduzia ao quarto, peguei na caixa, larguei o anel que ressoa acusadoramente na prateleira de cedro e fecha bruscamente as portadas cobertas de desenhos egípcios. O denso cheiro de cera e resina duma vela que transportava denunciou a chegada de Hiparco. Desatei a fita de cetim negro com que prendia o cabelo para trabalhar e virei-me, segurando nos braços a prenda para o homem por quem tão inconvenientemente me havia acabado por apaixonar.

 

         by Sophia

 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Anel (www.ancient-bulgaria.com/images/ring.jpg)
 

 
“And when the day has all but ended
And our echo starts to fade
No you will not be alone then”

 
música: Now comes the night – Rob Thomas
  (
http://youtube.com/watch?v=BqMY9mMMJKU)



publicado por **** às 15:00
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2 comentários:
De Lazy Cat a 30 de Março de 2008 às 22:56
Ainda n li o vosso conto e só lerei quando chegar ao fim!

O principio deixou-me com água na boca e xou um tanto ou quanto...impaciente!!!

Quanto às amêndoas, cara menina, nem coelho nem Pai Natal para se lembrarem de mim!

Humpf! Acho que ao Pai Natal n volto a deixar nem leite nem bolachinhas!!!

Boa semana Sofia, Um beijo.


De Sophia (do Flip Side) a 2 de Abril de 2008 às 22:06
Parece que feliz ou infelizmente não te faremos esperar por muito mais tempo...
É bom sinal porque conseguímos levar a bom termo a parceria, mas não escondo que estou triste por o conto estar a acabar.

Enfim... há coisas melhores que amêndoas... não se lembram esses dois, mas lembram-se outros que nos dão "prendas" bem melhores.
Estou solidária com a tua causa... este ano o pai natal vai mesmo passar fome.

Beijos


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