Quinta-feira, 19 de Julho de 2007
A Bela Dama

                            

A Bela Dama passa por mim.

O rumor dos folhos de sua saia ressoa gozão aos meus ouvidos.

 

Inspiro. Anda pelas ruas sem objectivo aparente, sem mote particular, sem razão para a sua brandeza, mas com a certeza no passo, a cadência no balancear das suas ancas, a firmeza nos seus gestos. Flutua nas calçadas de pedra com a sua fantástica figura, marcando o compasso do tempo, lento, sereno, pausado. Quem a vir ao longe, parecer-lhe-á um delicado vulto trajado de negro, vestida de veludo breu qual corvo sempre atento, paciente, moderado, mostrando a sua figura de deusa imortal. Quem a vir ao perto, rapidamente repara que a sua expressão acompanha a serenidade, a beleza, a doçura, do seu caminhar. Envergonha, com o seu ar, a sua aura, a sua atitude, todo o mero mortal que, numa ânsia de viver, vendo a areia do relógio a esgotar-se, se apresse no caminho.

 

Expiro. Por muito tempo, ela permaneceu longe e eu dela isolado, abrigado, escondido, mas nunca o roçar de suas saias cessou, mesmo afastado, mesmo longe da minha capacidade auditiva, mesmo remoto, ele continuava lá na minha alma, furtivo, dissimulado, gozão.

 

Inspiro. Deixo o seu perfume invadir-me a alma e libertá-la de tudo, fecho os olhos, procuro o seu colo, o seu corpo alvo, o seu ventre liso. Busco um prazer eterno, de tão extenuado do efémero, do comum, do vão. Provoco o murmúrio dos seus folhos, mais longo, mais definitivo, mais gozão que nunca.

 

Expiro. Deixo o ar sair calmamente de meus pulmões, sentido esvaziá-lo de forma morosa, preguiçosa, paulatina, e Morro.

_________________________________________________

 

À única Bela Dama da qual todas as gerações de homens, em todos os tempos, com todas as crenças, de todos os locais, sempre tentam frustradamente escapar

 

Àquela cujo nomear nos lembra da nossa finidade, da nossa impotência, da nossa pequenez

Àquela que é o modelo de democracia é ideal, estabelecendo leis sem excepções

Àquela que nunca deixa vivalma no esquecimento

Àquela que nunca nos vem bater à porta quando estamos ausentes

Àquela que não podemos enganar, subornar ou travar

Àquela à cerca da qual só sabemos a certeza da vinda

Àquela cuja única condição de visita é estar-se vivo

 

À nossa mais poderosa inimiga e mais anciã amiga

 

À morte

       _______________________________________

By Sophia  (texto com supressões)


música: Hallelujah - Leonard Cohen

publicado por **** às 13:10
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