Sábado, 15 de Março de 2008
O Momento do Reencontro (2 de 2)

(...)

 

Sempre, volto à superfície sempre. Não abro logo os olhos. Este mundo invade-me, o Meu deixa-me. Há salpicos, o som entra-me pelo ouvidos, sacode-me a alma, o sol queima-me a pele, deixa a sua marca sem eu o querer, a diferença de temperatura volta, gela-me o sangue. As pálpebras permanecem cerradas. Deixo-me flutuar. A água agita-se reclamando da deslealdade, do abandono, ela como amante traído, eu como fugitiva forçada. As pestanas quedam-se juntas. Não queria sair, quero lá estar e quererei lá permanecer.

Sempre, sempre quererei voltar. Sinto falta daquela solidão reconfortante, desse preenchido vácuo, daquele outro mundo de silêncios e ausências. Toda a calma me fascina, assim imagino a morte. Mas o mundo dos vivos chama-me, domina os sentidos, reclama o meu regresso, exigindo não só o corpo, mas arrancando também a alma. Levo com salpicos da prima, gritos do irmão, risos do tio e com o murmúrios do desconhecido. Passou o momento sem que ninguém, se não eu, reparasse. Debaixo de água sinto que posso deixar o meu corpo para trás, no entanto sinto-me mais eu que nunca. Todavia o momento acaba, é a pior coisa no fascínio do efémero, a imperfeição que dá beleza ao momento. Por enquanto faz-me companhia a nostalgia e conforta-me a esperança dum novo momento do reencontro.

 

Não sou a maior apaixonada pela praia, mas amo o mar.

O momento do reencontro com a água é sempre o mais esperado.

É um instante em que consigo deixar tudo de lado e, no entanto, sentir que nada perdi.

É uma das poucas coisas que me consegue acalmar, que me permite abandonar o pensamento, que me liberta dos aguilhoamentos da vida.

 

Mesmo que seja só por alguns minutos, sinto-me sossegada enquanto cada um dos meus terminais nervosos sente a pressão da água a acariciá-lo, enquanto o peso do meu cabelo negro deixa de estar sobre os meus ombros, enquanto as vozes internas e externas são abafadas pelo elemento.

 

 

By Sophia

 

 

"Life keeps tumbliing yout heart in circles

till you... let go (...)

Now you're out there swimming

Now you're out there spinninng

In the deep... In the deep..."

 

música: In the Deep (Bird York)

    http://youtube.com/watch?v=YbQPxJ10KWs&feature=related

     



publicado por **** às 20:20
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Sexta-feira, 14 de Março de 2008
O momento do reencontro (1 de 2)

   

              Sempre, à primeira custa sempre. Avanço sobre areia e as ondas lambem-me os pés, por vezes mais sôfregas, sem pudor, outras mais pacientemente, com carinho, por vezes quentes, reconfortantes, outras frias, quase desencorajantes, subindo rapidamente, invasoras, ou esperando lentamente que me entregue, desistente. Avanço e sinto-as pelos joelhos. Avanço e acariciam-me nas coxas. Avanço e abraçam-me a cintura. Sustenho a respiração, em parte pela diferença de temperatura, em parte pelo arrebatamento, em parte pela necessidade. Avanço, mergulho e cercam-me.

             Sempre, sofre-se o choque da mudança sempre. O som cessa, o mundo fica turvo perante os meus olhos, a água afaga-me a pele, a temperatura deixa de se sentir, o tempo pára. Dou um impulso  com o corpo, não tenho noção de quanto avanço. Dou um outro impulso, não tenho noção do que se passa à volta. Dou um novo impulso, não teria noção do tempo não fosse a crueldade da selecção natural me ter moldado para um outro elemento.

Sempre, resisto sempre. Agora infantilmente. Dou um bisonho impulso, já não avanço. Não preciso do canto das sereias, o encanto das ninfas ou o chamamento de Poseidon, basta o leve afago das águas para me prender. Dou um inábil impulso, toda a graciosidade se perde. A caixa torácica sobre e desce em vão. Dou um último impulso, este não só bisonho e inábil, mas indesejado, leva-me para fora. Quebra-se a vontade, quebra-se o encanto, quebra-se o coração. No meio da água talvez fique uma lágrima perdida, podendo chamar meu a um pouco do sal do mar.

(...)

                                       By Sophia

 

 

"allora sì che udir potrei

il mare calmo della sera.

nel mio silenzio"

 

música: Il mare calmo della sera - Andrea Bocelli

   http://youtube.com/watch?v=oW_ax3DmPlY



publicado por **** às 12:44
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008
Entre ser contado e contar

 

 

"Not everything that counts can be counted,
and not everything that can be counted counts."

 
(frase fixada algures nas paredes do escritório de Einstein em Princeton)
 
 
Raramente as coisas que realmente contam - aquelas que deveras importam, que nos podem tirar noites de sono ou que nos fazem ficar inquietos - podem ser contadas -  quantificadas, medidas ou calculadas.
 
Isso todos nós sabemos. O problema é distinguir o que conta do que é dispensável e o que pode ser contado do que permanece inquantificável.
Vamos por tentativa e erro... E esperamos que não sejam necessários tantas falhas que lhes percamos a conta.
 
  
 
By Sophia

    

  

   

Música: Violin Concerto No. 3 "Straussburg" K.215, 3rd Movement - W. A. Mozart


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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008
Um texto perdido

            

 

 

            Passo os dedos leves sobre o teclado já um tanto antiquado.

     No início com uma cadência lenta e pausada. Os dedos começam a acelerar e as ideias a fluir. Os dedos movem-se sozinhos e a mente não pede autorização para despejar tudo o que por ela passa para dentro da máquina. As palavras vão saltando, quase por magia, da imaginação para o ecrã. Já nada interessa, nem o barulho da rua, nem os sussurros dos vizinhos ou o próprio quarto quente.

     Perco a noção do tempo e até do lugar. Movo-me duma forma quase ritual para um outro mundo, uma nova galáxia ou dimensão, onde o tempo não passa e o espaço não pára de mudar num turbilhão. Esse mundo só meu, precioso e pessoal, onde me escondo na penumbra e desabafo todo o que penso, tudo o que sou – o que sei e o que não sei ser. Deixo-o sempre trancado e bem selado, mas sou traída por os meus dedos que escorrem sobre as teclas duras e abrem uma pequena janela, uma fenda estreita, para esse lugar tão meu.

      De repente acordo do transe e olho o texto, não me atrevo a lê-lo logo, sob pena de não ter coragem de o guardar. Tenho de ir, o outro mundo mais frio chama. Levanto-me e saio, mas continuo entre dois mundos o resto da tarde a pensar o quão perigosa é a escrita, de que forma subtil nos arranca segredos e revela o que somos mesmo quando não é essa a nossa intenção. De que forma uma simples história ou um inocente poema expõem o seu autor e abrem brechas para o seu pequeno refúgio, numa indecente exibição da nossa tão privada alma.

 

  

(Eis um texto perdido que não foi encontrado, mas que a mim me encontrou. Não sei ao certo há quantos anos o escrevi, ao que não posso negar a certeza é ao facto de ainda se continuar a passar o mesmo cada vez que escrevo algo, deixando tantas vezes notas soltas fechadas em gavetas, separando as palavras outrora agregadas em mil pedaços de papel ou, como com este se sucedeu, deixando textos perdidos nas mais recônditas profundezas do disco do meu computador. Fica a dúvida se me deveria ter escondido melhor... se não devia guardar também a alma numa gaveta antes que se desagrege em mil leves pedaços e se perca) 

 

 

          by Sophia

  

 

 

"In you and I,
There's a new land,
Angels in flight
I need more affection than you know
My Sanctuary,
My Sanctuary, yeah
Where fears and lies melt away..."

   

 

música: Santuary (english version) (from the game "Kingdom Hearts II") - Utada Hikaru

    http://youtube.com/watch?v=BufYv6UEfKM



publicado por **** às 16:31
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008
"Acorda"

     

 

    

    “Acorda…” - aconselha-me a primeira.

    Eu não estava a dormir… Olho-as por um segundo, conversam sem a minha ajuda. Volto a olhar o nada e vejo-me cercada de tudo. Não quer dizer que tudo muito seja, aliás ficava eu a cismar o quão pouco a minha vida é, no conteúdo escasso e no sentido inexistente. Isolo-me e sinto-me só.

 

    “Acorda.” - diz-me a segunda.

    Eu não estava a dormir. Oiço-as por um minuto, conversam sem que eu faça falta. Volto a ouvir a minha alma e sinto um silêncio profundo dentro de mim. Pretendo calar o seu eco com um alto e inaudível grito, ele reverbera por toda ela sem um som. Isolo-me e sinto-me só.

 

    “Acorda!” - ordena-me a terceira.

    Eu não estava a dormir! Acompanho-as pelas horas que mais fico, conversam sem que me interesse. Contudo não volto a olhar o nada e a ouvir a alma. O nada e o silêncio foram-se e eu insiro-me na conversa sem fim. Ninguém me manda acordar, só eu reparo que tudo isto faz a minha mente entorpecer, entrar em letargia, adormecer. Não me isolo e sinto-me mais só que nunca.

  

  

                                                           By Sophia 

      

  

"A sad and lonesome me.
 
I'm the walking wounded
And I'd say it to your face
But I can't find my place.
 
So tell me now, what more do you need?"

   


música: Walter Reed - Michael Penn

publicado por **** às 01:06
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Domingo, 2 de Dezembro de 2007
Um abraço...

 

                            

 

     Abraça-me com força e diz que me proteges. Só te rogo por uma noite, suplico que me deixes no meio dos teus braços, imploro pelo descanso que só tu me podes dar. Sozinha não aguento até à aurora sem renunciar, sem desistir, sem desertar, só te peço que fiques até à madrugada, que me abraces como antes. Mantém-me quente e afasta-me de todos os pensamentos, acalma-me o soluçar e percorre-me o corpo com caricias, deixa-me sentir o teu cheiro e afaga-me o cabelo  negro de moira encantada. Hoje quero depender de ti e esquecer que o mundo existe, quero acreditar que o frio não volta mais e confiar que o presente não repete o passado, quero crer que sou bela e ouvir mentiras verdadeiras só sob o juízo das estrelas desta noite.

      Abraça-me com mais força e diz-me que este abraço é eterno. Promete-o, assegura-o, garante-o. Assina com o teu punho, compromete a tua honra, jura pela tua alma. Fá-lo já, sem perdas de tempo. Amanhã será tarde... quando o alvor do sol voltar já terás outra vez partido para os braços de outra que mais te merece e eu não necessitarei de mais susurros ao ouvido, serei forte outra vez.

 

 

                                                              By Sophia

 

 

 

"Would you know my name
If I saw you in heaven
Will it be the same
If I saw you in heaven
I must be strong, and carry on
Cause I know I don't belong
Here in heaven
 
Would you hold my hand
If I saw you in heaven
Would you help me stand
If I saw you in heaven
I'll find my way, through night and day
Cause I know I just can't stay
Here in heaven

Time can bring you down
Time can bend your knee
Time can break your heart"


música: Tears in Heaven - eric clapton

publicado por **** às 00:23
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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
Atravessar a Estrada

   

                      

  

(o famoso bairro da Broadway, na imortal NY...

não posso morrer sem ir lá ver um musical)

   

Somos pequenos, insignificantes, desprezáveis...

  

O Mundo não pára para nos dar passagem.

A vida não abranda por nós.

O tempo não trava quando precisamos.

   

E quando queremos atravessar a estrada?

   

Bem... se temos de atravessar a estrada

devemos fazê-lo depressa...

Não podemos parar, abrandar ou travar.

 

Somos pequenos, insignificantes, desprezáveis...

   

Se conseguirmos chegar ao outro lado incólumes,

repararemos que haverá nova estrada

do outro lado do passeio.

  

Se não conseguirmos...

   

O Mundo não deixará de rodar.

A vida não deixará de singrar.

E o tempo certamente não deixará de passar.

    

Pois somos pequenos, insignificantes, desprezáveis...

  

   

    

                                                                                  By Sophia

  

"I wanna wake up in a city, that doesnt sleep
And find Im king of the hill - top of the heap"


música: New York, New York - Frank Sinatra
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Domingo, 4 de Novembro de 2007
Matar o tempo...

        

 

 

"Quem mata o tempo não é assassino: é suicida"

 

(autor desconhecido)

 

Não suporto desperdícios de tempo, não gosto de estar sem fazer nada de produtivo, odeio quando me obrigam a parar, fico impaciente se não aproveito os tempos de espera...

Por isso tornei-me perita em arranjar tarefas para cumprir onde quer que esteja, em descobrir distrações, em trabalhar em todos os lados.

Resultado? Estou sempre ocupada e queixo-me orgulhosamente disso!

  

Não me tenho de preocupar com desperdícios de tempos livros porque os consumo até ao último segundo, sabendo que um dia não me será dado nem mais um segundo para desperdiçar.

 

Quem mata o tempo não é assassino e pode não ser suicida: é inconsciente!

 

 

By Sophia

  

     

"Time goes by so slowly for those who wait
No time to hesitate
Those who run seem to have all the fun"

   


música: Hung up - Madonna
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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007
Tentação

     

    

"Posso resistir a tudo excepto à tentação"

(Oscar Wilde)

  

Ao contrário do senhor Wilde acho que posso resistir a tudo...

Tem tudo a ver com o nosso nível de auto-controlo,

com a capacidade que temos de comandar o nosso corpo,

com a faculdade de decidirmos o que queremos ou não.

 

Posso resistir a tudo...

até à tentação.

 

Mas será que quererei?

 

 

By Sophia

  

  

"I know I'm gonna die so my revenge is living well
Oh Lord, make me pure - but not yet"


música: Make Me Pure - Robbie Williams

publicado por **** às 00:03
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Terça-feira, 18 de Setembro de 2007
A Ampulheta

     

                        

    

 

      Ninguém sabe qual a consequência e qual a causa mas,

            quando nascemos, alguém vira uma ampulheta ao contrário...

      

      Desde cedo que nos informam da sua existência, nos fazem pensar na areia que vai correndo, nos fazem temer a altura em que a gravidade a puche toda para baixo. Porém esta ampulheta está velada por um negro manto de aveludado segredo que se mantém impenetrável deste o início do nosso tempo. Pela sua silhueta cintada não podemos precisar quantos grãos de oiro levará, quanto tempo demorará a acabar a contagem, quantos grãos de areia ainda temos.

      Então tentamos levantar um pouco o pesado véu. Uns demoram-se mais tempo, outros menos, mas todos - quando lhes é dado esse tempo - acabam por se conformar...

      Não é que deixem de ouvir, sentir, pensar na ampulheta, o som do impacto dos grãos de areia cadentes ecoa na estrutura de vidro paulatinamente... Apenas se habituam, ignoram, se conformam com a constante presença.

   

      Imaginem que depois todos esses processos

             alguém destapa a ampulheta?

 

      Viver sabendo que vamos morrer?

             Não é fácil, mas todos o fazemos...

      Viver sabendo quando vamos morrer?

             É difícil, uma tortura, quase insuportável...

  

                  ... deixa-se de  viver antes de morrer.

 

    

                                                 By Sophia 

 

      

"Die, die we all pass away
But don't wear a frown cuz it's really okay
And you might try 'n' hide
And you might try 'n' pray
But we all end up the remains of the day"

  


música: The remains of the day (from 'Corpse Bride') - Danny Elfman

publicado por **** às 15:54
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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007
Cometas...

    

     

"When beggars die there are no comets seen;
The heavens themselves blaze forth the death of princes."

      

     Diz-se que uma vida humana não tem preço. Não tenho a certeza se será realmente assim, mas não tenho dúvida que há umas que valem mais que as outras.

     Não há igualdade na vida, desde que damos o primeiro berro nos braços do parteiro até a que o nosso último suspiro se dissolva no ar. Levamos toda a vida a tentar deixar uma marca antes de partirmos, mas na maior parte das vezes as pegadas na areia desaparecem mal a maré sobe e todo esse esforço foi em vão. Se bem que se tirarmos esse esforço da vida nada nela valha a pena.

     Lutamos por viver, lutámos por o que temos agora e lutamos pelo que há-de vir sem ter a certeza que realmente a morte nos concederá esse tempo. Somos tantos que a hipótese de fazermos a diferença é mínima e mesmo que a façamos ninguém notará. A cada instante morre uma pessoa, mas o mundo não pára, o mundo nem nota. Mesmo não sendo "pedintes" (se é que mendigar por um pouco de vida não nos tornará nuns), os meros mortais não tem direito a "cometas" nem quando nascem, nem quando vivem, nem quando morrem.

     Os céus podem resplandecer para alguns, mas não há aurora boreal que sempre dure... todos estamos condenados primeiro à morte e depois ao esquecimento, se bem que uns, por motivos bons ou maus, sejam lembrados por mais tempo pelos vivos.

     Há-de haver um dia que um dia que o próprio Júlio César, o "princípe" frase, e até o grande Shakespear, que a ele dedicou a peça da citação, serão esquecidos... se bem que seja mais provável que aquele em que todos se esquecerão de mim tarde menos.

 

    Enquanto espero por esse dia olho o céu, à procura nem eu sei bem de quê. Talvez espere um cometa...

                                   By Sophia

  

 

(esta é uma imagem do cometa McNaught, descoberto no ano passado, foi tirada na Nova Zelândia e está no site inglês da National Geographic)

  

"High up in the sky the little stars climb
Always reminding me that were apart (...)
Leaving me a song that will not die"


música: Stardust - Frank Sinatra

publicado por **** às 23:09
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007
Conversas entre Vivos e Mortos

        

                

      

Como seria se pudéssemos falar com os mortos?

 Que perguntas lhe faríamos nós e que conselhos nos dariam? Com que pretexto iríamos nós chamá-los à sua tumba, tocar-lhes no ombro (caso ainda o tivessem), arrancá-los do seu profundo sono? Com que justificação iriam eles interpor-se entre nós e a vida, sussurrar-nos um chamamento ao ouvido, impor-se neste mundo que deixou de ser deles?

Que maravilhas saberíamos? Que segredos nos revelariam? Quantas coisas perdidas seriam achadas? Quanto conhecimento morto ressuscitaria? Quanta nostalgia convidada seria expulsa?

 

Como seriam as Conversas entre mortos e vivos? Talvez assim...

 

(começa o morto)

“... é difícil a um vivo entender os mortos, Julgo que não será menos difícil a um morto entender os vivos, O morto tem a vantagem de já ter sido vivo, conhece todas as coisa deste e desse mundo, mas os vivos são incapazes de aprender a coisa fundamental e tirar proveito dela, Qual, Que se morre, Nós, vivos, sabemos que morreremos, Não sabem, ninguém sabe, como eu também não sabia quando vivi, o que nós sabemos, isso sim, é que os outros morrem, Para filosofia, parece-me insignificante, Claro que é insignificante, você nem sonha até que ponto tudo é insignificante visto do lado da morte, Mas eu estou do lado da vida, Então deve saber  que coisas, desse lado, são significantes, se as há, Estar vivo é significante,”*

 

(começa o vivo)

“...Um dia você escreveu Neófito, não há morte, Estava enganado, há morte, Di-lo agora porque está morto, Não digo-o porque  estive vivo, digo-o, sobretudo, porque nunca mais voltarei a estar vivo, se você é capaz de imaginar o que isso significa, não voltar a estar vivo...”*

Como seria maravilhoso, como o número de conversas possíveis se multiplicariam... Mas o que passaria a diferenciar vivos e mortos?

Quanto sábios voltariam para nos encaminhar e quantos criminosos para nos desencaminhar?

 

         Num Mundo assim muitas perguntas seriam respondidas, mas muitas novas surgiriam... Seria realmente um mundo melhor? Não sei... mas lá que venderia a minha alma por uma hora de conversa com uma mãe cheia de pessoas que actualmente estão separadas de mim pelo abismo da morte, venderia...

  

                   By Sophia

           

* Excertos do Livro 'O Ano da Morte de Ricardo Reis' de José Saramago

É parte duma conversa entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, o "vivo" e o morto

 

“The sure redeeming feature

From that little creature

Is that she’s alive.

Overrated… Overblown…

Everybody know that’s just a temporary state,

Which is cured very quickly when we meet our fate.”


música: Tears to Shed (from the movie ‘Corpse Bride’) – Danny Elfman

publicado por **** às 02:26
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Domingo, 26 de Agosto de 2007
O Fim do Mundo...

  

  

         Empiricamente sabemos que tudo tem um princípio e um fim. Sendo assim a ideia do Apocalipse não seria tão disparatada, seria portanto lógico que este mundo também tenha tido um princípio e venha a ter um fim. A ideia é lógica, tem o seu qui pro quo de plausibilidade, mas as teorias são, a meu ver, hilariantes. Os seres humanos nunca poderiam ter um final natural como os outros seres, esses são filhos dum Deus Menos”! Os Dinossauros, essas bestas, tiveram direito a um grande exlposão vulcânica, a um impacto meteorítico, a uma era do gelo repentina... Nós somos.. nós somos especiais! Não sabemos bem,  mas temos direito a melhor! Algo digno dum filme Hollywoodesco, com muitos efeitos especiais, acção e a sua cota parte de dramatismo... Algo em grande.

Uma sugestão:

   

"Férteis terras serão transformadas em prisões. O sofrimento humano será como uma chuva sem fim.

Os homens estão caminhando para a catástrofe. Serão os menos capazes que levarão as rédeas. (...) a humanidade será esmagada pelo alvoroço dos loucos e dos malfeitores. A sabedoria será aprisionada. Serão o ignorante e o prepotente que ditarão a lei ao sábio e ao humilde. (...)”*

    

Seremos governados pelos “menos capazes”, pelos “loucos” e “malfeitores”... OK é compreensível: os nossos sábios governos será substituídos por aqueles que nos levarão à condenação, ao Fim. Lembraremos com saudade os lideres bravos e incorrompíveis de Agora... Mas há um problema... Onde estão os sábios e humildes? Não pergunto no Fim dos Tempos, mas agora? Conheço poucos (e em relação a muitos deles, senão todos, posso estar enganada). Eu própria não sei se preencherei algum dos requisitos, quanto mais ambos (embora haja alguma humildade em admitir isso.. ou será apenas falsa modéstia?). Duvido que o próprio Rasputine, místico russo autor desta previsão, tenha sido um exemplo de sabedoria e humildade (a menos que tenha sido privado do seu símbolo de masculinidade, segundo contam os rumores bastante avantajado, pelo facto de ser tão humilde que preferia não mostra nenhuma das qualidades).

Afinal como podemos ver quando é o início do fim do mundo? Já terá começado ou está a acabar? Ainda tem muito de piorar? Quando será o ponto e que devem os “humildes e sábios” fazer (onde quer que estejam)?

Ok... Ok... Estou a ser má, fatalista, pessimista... Não estamos assim tão mal e além disso o documento não acaba aqui, mais à frente ainda há mais algumas pistas para identificarmos o Fim do Mundo:

 

”(...) O ar que hoje entra em nossos pulmões para levar a vida, levará um dia a morte. E chegará o dia em que não haverá montanha nem colina; não haverá mar nem lago que não estejam envoltos pelo hálito fétido da Morte. E todos os homens respirarão a Morte, e morrerão por causa dos venenos suspensos no ar. (...) e as águas amargas infectarão os tempos como a cicuta, porque as águas amargas trarão tempos amargos."*

 

Será difícil distinguir-se entre o aumento da poluição e o Apocalipse, mas havemos de notar, haverá algo que mudará na nossa mente e teremos noção da gravidade da situação, haverá uma consciencialização geral e definitiva  como nunca até então a Humanidade terá presenciado. Será então tarde demais? Não tenho a certeza... o documento nada mais diz.

 

Mas afinal que conclusões podemos tirar? Proveitosas... só uma: eu preocupo-me em demasia, sou demasiado complicada e devia dar mais importância a assuntos com alguma componente prática! Sou uma mulher de Ciência! O Dia do Juízo Final ainda deve tardar, não deve assombrar a minha geração e visto que não faço questão de gerar uma grande prole, também não me tenho de preocupar muito com as vindouras. Realmente devo dar algum descanso às dendrites, axónios, corpos celulares e afins e deixar de me preocupar com o fim do mundo para me preocupar mais com o bem mais próximo fim das Férias.

  

By Sophia

  

*excertos das previsões de Grigorij Efiemovic Novikh (Rasputin), São Petersburgo, 1912

(a imagem é do filme Constantine)

  

“I tried so hard and got so far

But, in the end, it doesn’t even matter”


sintomo-nos: Apocalípticas
música: In The End – Linking Park

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Sábado, 18 de Agosto de 2007
"Auguries of Innocence"

      Aqui estão alguns fragmentos do poema “Auguries of Innocence” e a tela “Oberon, Titania and Puck with Fairies Dancing”, ambas da autoria de William Blake. Decidi apresentar este escritor e pintor inglês que leio há bastante tempo, não só porque gosto, mas também porque fez neste mês (no dia 12) 180 anos da sua morte.

      Como curiosidade descobri recentemente que o outro poeta inglês que falámos no blog, Jim Morrison, tirou a ideia para o nome da banda da qual era vocalista – os “the Doors” – dum trabalho deste escritor - "The Doors of Perception".

                             By Sophia

  

       

 

To see a World in a Grain of Sand

And a Heaven in a Wild Flower,

Hold Infinity in the palm of your hand

And Eternity in an hour.

 

(…)

  

A truth that’s told with bad intent

Beats all the Lies you can invent.

It is right it should be so;

Man was made for Joy and Woe;

And when this we rightly know

Thro’ the World we safely go.

 

Every Night and every Morn

Some to Misery are Born.

Every Morn and every Night

Some are Born to sweet delight.

Some are Born to sweet delight,

Some are Born to Endless Night.

 

(...)

         

William Blake

 


música: Tears in Heaven - eric clapton

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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007
Os Loucos...

  

   

     Chamamos loucos aos enfermos e dementes, aos insensatos e tolos, mas quem será realmente louco?

 

    Alguém que insistiu em cantar e espalhar por toda a parte, usando o “engenho e a arte”, “as memórias gloriosas” a um povo duro de ouvido? Um homem acreditava que se pode derrotar a violência com a ausência desta? Uma mulher que ousou chegar a doutora antes das outras e ganhar um Nobel (ou mesmo dois) no meio de homens? Uma mente que julgava possível compreender o universo só reflectindo logicamente?

    Não terão sido então, no fundo, loucos todos os que ousaram deixar a marca da sua efémera existência no nosso mundo? Todos aqueles que ousaram ir mais alto? Diz afinal o povo que “de génio e de louco todos temos um pouco” e já muitos provaram que ambas as características se podem interligar intimamente.

    Não será louco lutar por uma causa já perdida? Ou tentar sorrir quando temos uma ferida que sangra? Não ter medo de pertencer a uma minoria? Dizer o que se pensa? Saber que há alturas que mais vale calar? Fazer mais do que o estritamente necessário? Não será sinal da mais pura demência tirar prazer de pequenos gestos?

Sendo assim não sei se, por vezes ou mesmo sempre, serei louca…

    Talvez seja… quem sabe… mas não deixo de pensar se aqueles loucos que vagueiam pelas ruas apinhadas da Cidade, acenando alegremente a todos os que passam distraídos com os seus problemas, não serão afinal os que melhor se conseguem abrigar da crueza da realidade e sugar o tutano da vida, extraindo dela o deleite que muitos racionais afirmados julgam quiçá não existir…

 

    Quem são afinal os loucos desta vida?

    Aqueles que se cobrem com uma carapaça de loucura

   Ou os que cometem a insensatez de a levarem demasiado a sério, sem se aperceberem que, como tudo, a vida não é eterna?

   

     Enfim... sendo bom ou não, eu acho que o sou por vezes, para não dizer sempre. Como diria Salvador Dali "Como posso querer que meus amigos entendam as coisas loucas que passam pela minha cabeça, se eu mesmo, não entendo?". Se têm amor à vossa sanidade, limitem-se a não me ligarem meninas... 

 

       By  Sophia

(para quem inda não conhece faça este teste, vale a pena: Que gênio-louco é você?)

    

 


sintomo-nos: loucas
música: Gnarls Barkley - Crazy

publicado por **** às 12:58
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