Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Um mergulho

    

      Desprevenida, oiço os sons fúnebres da música há tanto conhecida - lembro-me e mergulho repentinamente.
      Desço um pouco mais, mais um metro, outro e dois mais. Os graves vão soando mais abafados, a massa de água supera a pressão da música nos tímpanos, mas em nada mais - o coração bate pelo compasso demarcado e o consciente palpita em memórias emergentes. Chego ao fundo, sento-me com a pele de encontro aos azulejos, de olhos há muito fechados e de braços a envolverem os joelhos contra o peito. O ambiente tão uterino, a posição fetal e a minha solitária pulsação dão-me uma calma há muito ausente - recuso voltar, mantenho-me lá. O toque quente da água acolhe-me em carícias de outrora, beija-me todo o corpo, conforta-me a alma, abraça-me a mente – não cedo à carência de ar, a alternativa falta de calor é mais letal. Um abrupto estilhaço dum saber já interiorizado cruza os pensamentos que perdem celeridade – a piscina não tinha a água aquecida, eu é que estava fria. Terminante, irrevogável, mortalmente fria.

 

      Desprevenida, abro os olhos e deixo entrar um pouco de água por entre os lábios vermelhos - quebra-se algo e dou um impulso repentino para voltar à superfície.
      Subo o quarteto de metros. À sinfonia que ainda assola a memória vai-se juntando a sincronia da gravação – compasso e memórias continuam presentes. A ar invade os pulmões que haviam esgotado o seu oxigénio, sem dar tempo para reconsiderar o regresso, perturbo solitária a superfície lisa da água com movimentos sôfregos – aproximo-me da borda, ergo-me sobre os braços para longe da água.
     Subo um pouco mais. Os graves agudizam-se num culminante final – o coração continua a trautear a letra conhecida e num inconsciente de turvas águas imergem as memórias quentes. Ardilosa, confortável, cruelmente quentes.

 

                                               By Sophia 

   

 

 

“That voice which calls to me and speaks my name
And do I dream again for now I find
The Phantom of the Opera is there
Inside my mind”

 

Música: The Phantom of the Opera – Andrew Lloyd Webber (compositor)
   
http://youtube.com/watch?v=Ej1zMxbhOO0

 



publicado por **** às 00:57
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008
Wake me up when Spetember ends...


Summer has come and passed

The innocent can never last

Wake me up when September ends...




Por vezes apetece-nos fechar os olhos e dormir. Dormir. Dormir. Não ver. Não ouvir. Não sentir. Sentimos o tempo passar. Primeiro as horas... Depois são dias... Quando nos damos conta já passaram meses e pouco depois passaram anos e não reparámos... Dormimos sem dormir e no fim queremos apenas um descanso.


As vozes tornam-se pesarosas, os textos curtos, as ideias inconstantes.


Acordem-me. . . Acordem-me quando Setembro acabar, mas até lá deixem-me dormir.


By Ana M.

música: Wake Me Up When September Ends - Green Day

publicado por **** às 18:31
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008
Beijo
Beijo
Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!


Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo...
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

Guarda segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois...

Oh! Dois? piedade!
Coisas tão boas...
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!

Três é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três.

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as graças,
Três as Virtudes;
Três!


João de Deus, Campo de Flores (1893)

sintomo-nos:
música: Showtime - Nelly Furtado

publicado por **** às 11:18
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008
Asking why...

 

                                                          Newton by William Blake

 

  
                 Millions saw the apple fall,                 

but Newton was the one who asked why.

 

Bernard Baruch

 

 
          Foi essa capacidade de perguntar que o levou a ele e a muitos a não cair no esquecimento.
       Independentemente de nos ocuparmos das grandes questões da física ou de assuntos da nossa minúscula esfera pessoal, nunca se chega a uma resposta sem se fazer a pergunta, nunca se consegue uma solução se não identificarmos o problema, nunca se organiza algo se não houvesse caos antes.

       Perguntarmo-nos porque tudo a à nossa volta caí não nos garante que cheguemos longe, mas se não o fizermos é garantido que nada descobrimos.

 

 
                                                     By Sophia

  

 
 

"Oh Gravity is working against me
And gravity wants to bring me down

   Oh twice as much aint twice as good
And can't sustain like a one half could
It's wanting more
That's gonna send me to my knees

(...) Oh gravity, stay the hell away from me
And gravity has taken better men than me"

 

música: Gravity - John Mayer  



publicado por **** às 22:28
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008
Rolling on the river...
O vestido curto chama a atenção mas é na sua voz que nos concentramos quando  começa a música. Com mais 42 anos nas pernas - e no resto do corpo - Miss Tina Turner dispensa apresentações.



Big wheel keep on turning
Proud mary keep on burning
And we’re rolling, rolling
Rolling on the river


publicado por **** às 11:18
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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008
O teu toque

 

     Hoje senti o teu toque, não sabendo se esta sensação se repetirá amanhã.

 

     Na verdade nem sequer foi por muito – foi um toque fugaz, instantâneo, fugidio.

     Foi um único e solitário afagar das tuas mãos na base das minhas costas, um aperto leve, um apoio breve, um pedido implícito para eu me desviar um pouco sem me afastar. Não te vi aproximar - estava desprevenida, distraída, ausente - mas cada porção da minha pele se arrepiou no instante em que senti a pressão dos teus dedos. O roçar da tua pele quente na minha, que sempre dizias macia, inebriou-me o ser, toldou-me a mente, provocou-me o corpo. Perdi o controlo dos pensamentos que rolaram sozinhos num descortês emaranhado de devaneios, mas mantive o controlo das acções.

    Quedaste-te assim por um só momento, mas foi o suficiente para me deixar atordoada, febril, sedenta.

     Na verdade nem sequer foi intencional – foi um roçar distraído, não te apercebeste do efeito que tiveste.

     Na verdade nem sequer foste tu – foi outro a tocar-me, mas foi o teu toque que senti, que recordei e que me fez sofrer.

 

     Hoje quis sentir o teu toque, sabendo que este desejo se repetirá em muitos amanhãs.

  

 

         By Sophia

 

 

" Lie awake in bed at night
And think about your life
(...) It's the perfect denial
Such a beautiful lie to believe in "

 

Música: Beautiful Lie - 30 Seconds to Mars

   http://youtube.com/watch?v=_EcX4OtLWVs



publicado por **** às 22:01
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Sábado, 9 de Fevereiro de 2008
Precious and fragile things


Things get damaged

Things get broken

Nunca pensei poder partir-te em pedaços de vidro. Nunca pensei que fosses algo.
Creio que não o fiz por mal.

I thought we'd manage
But words left unspoken

Agora toco-te a medo. Murmúrios escapam dos meus lábios e minhas mãos percorrem-te em busca de pedaço de mim.
Calo-me.

Left us so brittle
There was so little left to give




música: Depeche Mode - Precious and fragile things

publicado por **** às 12:44
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008
Linkin Park - Leave Out All The Rest

I dreamed I was missing
You were so scared
But no one would listen
Cause no one else cared

After my dreaming
I woke with this fear
What am I leaving
When I'm done here

(...)

When my time comes
Forget the wrong that I've done
Help me leave behind some
Reasons to be missed

(...)


I'm strong on the surface
Not all the way through
I've never been perfect
But neither have you

So if you're asking me
I want you to know

(...)


Forgetting
All the hurt inside
You've learned to hide so well

Pretending
Someone else can come and save me from myself
I can't be who you are

(...)

from azlyrics

Lucya


publicado por **** às 15:46
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008
Entre ser contado e contar

 

 

"Not everything that counts can be counted,
and not everything that can be counted counts."

 
(frase fixada algures nas paredes do escritório de Einstein em Princeton)
 
 
Raramente as coisas que realmente contam - aquelas que deveras importam, que nos podem tirar noites de sono ou que nos fazem ficar inquietos - podem ser contadas -  quantificadas, medidas ou calculadas.
 
Isso todos nós sabemos. O problema é distinguir o que conta do que é dispensável e o que pode ser contado do que permanece inquantificável.
Vamos por tentativa e erro... E esperamos que não sejam necessários tantas falhas que lhes percamos a conta.
 
  
 
By Sophia

    

  

   

Música: Violin Concerto No. 3 "Straussburg" K.215, 3rd Movement - W. A. Mozart


tags: ,

publicado por **** às 15:12
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Sábado, 2 de Fevereiro de 2008
O Salto mortal (2 de 2)

                        (...)

 

      Uma troca de sinais fica por dar-se. Os amantes comunicam só com o olhar, mas a união entre voador e base supera-a. Entre estas duas almas a sincronia era tão completa, a confiança tão forte, a entrega tão consumada que já nem disso precisavam para ele sentir o segundo exacto em que ela se lançará no ar, para ele se pendurar de cabeça para baixo e para acertar o bailado pendular do trapézio dele com a trajectória - agora derradeiramente perfeita e una - traçada por ela e pelo trapézio dela.

      Ela conta os compassos e, no exacto oscilar do quartzo, larga o suporte. Vê-se outra vez num voo desamparado de corpo arqueado, mas agora dá uma cambalhota no ar – concentra-se no movimento e tenta ganhar impulso - , dá outra volta sobre si mesma – sente-se mais distante e esforça-se por controlar cada um dos músculos -, dá uma terceira – mente e corpo mal lhe respondem, mas ela endireita-se bruscamente, estendendo os braços. Os dedos dela encontram os musculosos antebraços dele, escorregando num afagar sôfrego até aos pulsos que absorvem o primeiro impacto. Ambos abraçam os punhos um do outro, os dela finos, os deles grossos, ambos enfaixados e fortes. Ela aperta-o com uma urgência quase passional, ele fá-lo com uma precisão deveras possessiva.

      A pega dá-se.

      Desde logo se sabe que está na eminência de se desfazer, como aconteceu com a anterior e como acontecerá com todas as que se façam posteriormente.

      A pega desfaz-se.

      Mais uma vez o ininterrupto ciclo – o escorregar de mãos, o impulso arriscado, o voo desamparado. Mais uma vez o apaixonado baile de voador e base, necessariamente perfeito. Mais uma vez, mais uma e outra... Até que, um dia, uma pega desleixada não se desfaça porque não se consegue dar e seja dada ao salto mortal uma irrefragável oportunidade para fazer jus ao seu nome.

 

           By Sophia

 

  

“ the world - it won't wait for you
it's got its own things to do

 (…)
To my brilliant feat
I make grown men weep
and still my eyes grow oh so cloudy …“

  
música: My Brilliant Feat – Colin Hay

   http://youtube.com/watch?v=pgizT2om-4s



publicado por **** às 19:24
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