Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008
Um texto perdido

            

 

 

            Passo os dedos leves sobre o teclado já um tanto antiquado.

     No início com uma cadência lenta e pausada. Os dedos começam a acelerar e as ideias a fluir. Os dedos movem-se sozinhos e a mente não pede autorização para despejar tudo o que por ela passa para dentro da máquina. As palavras vão saltando, quase por magia, da imaginação para o ecrã. Já nada interessa, nem o barulho da rua, nem os sussurros dos vizinhos ou o próprio quarto quente.

     Perco a noção do tempo e até do lugar. Movo-me duma forma quase ritual para um outro mundo, uma nova galáxia ou dimensão, onde o tempo não passa e o espaço não pára de mudar num turbilhão. Esse mundo só meu, precioso e pessoal, onde me escondo na penumbra e desabafo todo o que penso, tudo o que sou – o que sei e o que não sei ser. Deixo-o sempre trancado e bem selado, mas sou traída por os meus dedos que escorrem sobre as teclas duras e abrem uma pequena janela, uma fenda estreita, para esse lugar tão meu.

      De repente acordo do transe e olho o texto, não me atrevo a lê-lo logo, sob pena de não ter coragem de o guardar. Tenho de ir, o outro mundo mais frio chama. Levanto-me e saio, mas continuo entre dois mundos o resto da tarde a pensar o quão perigosa é a escrita, de que forma subtil nos arranca segredos e revela o que somos mesmo quando não é essa a nossa intenção. De que forma uma simples história ou um inocente poema expõem o seu autor e abrem brechas para o seu pequeno refúgio, numa indecente exibição da nossa tão privada alma.

 

  

(Eis um texto perdido que não foi encontrado, mas que a mim me encontrou. Não sei ao certo há quantos anos o escrevi, ao que não posso negar a certeza é ao facto de ainda se continuar a passar o mesmo cada vez que escrevo algo, deixando tantas vezes notas soltas fechadas em gavetas, separando as palavras outrora agregadas em mil pedaços de papel ou, como com este se sucedeu, deixando textos perdidos nas mais recônditas profundezas do disco do meu computador. Fica a dúvida se me deveria ter escondido melhor... se não devia guardar também a alma numa gaveta antes que se desagrege em mil leves pedaços e se perca) 

 

 

          by Sophia

  

 

 

"In you and I,
There's a new land,
Angels in flight
I need more affection than you know
My Sanctuary,
My Sanctuary, yeah
Where fears and lies melt away..."

   

 

música: Santuary (english version) (from the game "Kingdom Hearts II") - Utada Hikaru

    http://youtube.com/watch?v=BufYv6UEfKM



publicado por **** às 16:31
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De Ana M. a 30 de Janeiro de 2008 às 22:50
Gostei do texto mas não me identifico com ele. Feliz(ou infeliz)mente escrevo o que penso, o que não penso e o que deveria pensar. Mostro o que acho, o que não acho e ainda o que nunca acharei . Coloco-me na pele de outro, maquilho-me a rigor e desmonto a personagem erguendo numa folha em branco palavras ao acaso.
No fim o acaso dá lugar a casos bastante agradáveis e que me surpreendem e divertem.
Afinal de contas, a escrita é um divertimento, as palavras um jogo e a vida apenas um nível.

ßy Aηα M.


De Sophia (do Flip Side) a 31 de Janeiro de 2008 às 23:03
"escrevo o que penso, o que não penso e o que deveria pensar" - normalmente escrevo o que vivo, o que não vivo, o que deveria viver e ainda aquilo que, não devendo, dava tudo para viver.
Quanto ao pensar tendo a escrever sobre o que penso, mesmo que ponha muito pó-de-arroz sobre as opiniões e caras - normalmente há sempre algo de mim nos meus textos, mesmo que a mascarilha não permita reconhecer-me.

"a escrita é um divertimento" - que nos pode fazer distrair e baixar as guardas
"as palavras um jogo" - que sempre podemos perder
"a vida apenas um nível." - que se revele positivo, espero (e desespero =) )

beijos


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