Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
O Salto Mortal (1 de 2)
  

      Desfaz-se a firme pega.

     Ao sinal mais pressentido que combinado, os dedos dela afrouxam levemente e escorregam pelos pulsos enfaixado dele, ele dá um impulso arriscadamente definitivo e lança-a num voo desamparado. Ela arqueia o corpo esguio num gesto aprendido, sentindo um instintivo, mas ignóbil, pânico, inerente a quem troca o toque humano - uma união de punhos, estável, confiante, íntima – pela carícia do vazio.

      Por ser humano, o outro companheiro erra – atrasa o instante preciso do lançamento do trapézio – e, por não o ser, o aparelho não consegue emendar o erro – a lasca de tempo permanece erroneamente suspensa, metros a cima da rede esticada junto à pista de areia e serradura. A gravidade, contudo, chama-a a ela, impedindo-lhe de ficar sustida no momento e no ar. Maquinalmente, se bem que não conseguindo a usual perfeição, ela acerta o ritmo já interiorizado, antecipa o instante do impacto e os dedos finos encontram o ferro frio do trapézio oscilante. Entortara-se um pouco trapézio e trapezista - tudo isto escapara aos distantes olhos leigos em baixo na plateia – traçando ambos uma trajectória una até ao suporte.

      O arrependido comparsa segura-lhe a barra, suplicando-lhe perdão com o olhar. Entretanto ela faz uma rendilhada vénia, em parte para recuperar o preciso equilíbrio, em parte para suscitar o precioso aplauso do público - a grande maioria olha-a, uma insignificante minoria, diluída nos bancos de madeira, derradeiramente observa-a. Ela nada mais olha ou observa que ele, sentado no segundo trapézio que oscila a um ritmo regular.

 

   (...)

   

           By Sophia

 

  

“did someone call my name?
like a distant drum is beating
(...)

 To my brilliant feat

they all pay heed,
I hear the crowds roar oh so loudly…

Is it a game of chance
or merely circumstances?

  
música: My Brilliant Feat – Colin Hay

   http://youtube.com/watch?v=pgizT2om-4s



publicado por **** às 06:19
link do post | comentar | favorito

4 comentários:
De V.A.D. a 2 de Fevereiro de 2008 às 01:31
Descuido perigoso, pequena assincronia
Falha eventual, erro de cálculo, fortuito
Largam-se as mãos, solta-se um grito
Contem-se o fôlego, súbita asfixia...
Mas o instinto é poderoso
Devolve ao voo a harmonia
Corrige a trajectória, salva o dia
Salto difícil, final airoso...

A vida também é um trapézio, minha amiga...*
Desejo-te uma óptima noite e um maravilhoso fim-de-semana!

Um beijo e um enorme sorriso... :-)



De Sophia (do Flip Side) a 2 de Fevereiro de 2008 às 20:46
"Mas o instinto é poderoso / Devolve ao voo a harmonia" - da mesma maneira que somos capazes de cometer erros também somos os únicos que, de livres arbitrio, os podemos anular ou, pelo menos, em falta de de prevenção, remediar.
Normalmente nunca saímos completamento impunes dum erro, nosso ou de outros, mas podemos minimizar essas consequências - abdicamos dum pouco da elegãncia do voo para que consigamos chegar ao suporte em segurança.

Quanto à vida ser como um trapézio quando não o é devia sê-lo - falta-lhe tantas vezes a beleza dum voo de trapézio, a completa entrega que é necessária por parte dos artistas, o risco que cada actuação representa, a paixão pelo movimento... Contudo a vida nunca tem a rede de segurança que, embora possa causar cicatrizes nos artistas devido ao impacto das cordas, os separa do bem mais duro solo.

Obrigada pelo poema deveras fantástico

Beijos e que tenhas uma boa noite, tão bela quanto um número sem a mais "pequena assincronia"


De Ana M. a 2 de Fevereiro de 2008 às 17:47
Incrível a forma como um olhar perde perdão e um toque nos desfaz os sentidos...

beijos *


De Sophia (do Flip Side) a 2 de Fevereiro de 2008 às 19:52
Sem dúvida...

É incrivel como olhar e toque nos podem ora pedir perdão ora deixar-nos os sentidos completamente derretidos e como, no entanto, por vezes podem fazer completamente o contrário, nos insultar e transmitir frieza.

Mais incrível ainda é como um olhar, um toque ou ambos nos podem fazer tanta falta... como bastariam para fazer a diferença.

Muitos beijos
e que fiques com os sentidos bem desfeitos


Comentar post

.mais sobre nós
.Julho 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
16
17
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


.posts recentes

. Is it Still "The Beginnin...

. O tango Inacabado - IV

. O tango Inacabado - III

. O tango Inacabado - II

. O tango Inacabado - I

. in 6 words...

. Antiquitera (XIV) - Epílo...

. Antiquitera (XIII)

. Antiquitera (XII)

. Antiquitera (XI)

. Antiquitera (X)

. Antiquitera (IX)

. Antiquitera (VIII)

. Antiquitera (VII)

. Antiquitera (VI)

. Antiquitera (V)

. Antiquitera (IV)

. Antiquitera (III)

. Antiquitera (II)

. Livro Ilegível

.arquivos

. Julho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

.pesquisar
 
.Faz-nos Pensar...
Citação: "Love all, trust a few." Autor: William Shakespeare Citação: Judge your success by what you had to give up in order to get it. Autor: H. Jackson Brown, Jr. Citação: Keep your friends close and your enemies closer. Autor: Attributed to Sun Tzu,
.links
.subscrever feeds