Sábado, 2 de Fevereiro de 2008
O Salto mortal (2 de 2)

                        (...)

 

      Uma troca de sinais fica por dar-se. Os amantes comunicam só com o olhar, mas a união entre voador e base supera-a. Entre estas duas almas a sincronia era tão completa, a confiança tão forte, a entrega tão consumada que já nem disso precisavam para ele sentir o segundo exacto em que ela se lançará no ar, para ele se pendurar de cabeça para baixo e para acertar o bailado pendular do trapézio dele com a trajectória - agora derradeiramente perfeita e una - traçada por ela e pelo trapézio dela.

      Ela conta os compassos e, no exacto oscilar do quartzo, larga o suporte. Vê-se outra vez num voo desamparado de corpo arqueado, mas agora dá uma cambalhota no ar – concentra-se no movimento e tenta ganhar impulso - , dá outra volta sobre si mesma – sente-se mais distante e esforça-se por controlar cada um dos músculos -, dá uma terceira – mente e corpo mal lhe respondem, mas ela endireita-se bruscamente, estendendo os braços. Os dedos dela encontram os musculosos antebraços dele, escorregando num afagar sôfrego até aos pulsos que absorvem o primeiro impacto. Ambos abraçam os punhos um do outro, os dela finos, os deles grossos, ambos enfaixados e fortes. Ela aperta-o com uma urgência quase passional, ele fá-lo com uma precisão deveras possessiva.

      A pega dá-se.

      Desde logo se sabe que está na eminência de se desfazer, como aconteceu com a anterior e como acontecerá com todas as que se façam posteriormente.

      A pega desfaz-se.

      Mais uma vez o ininterrupto ciclo – o escorregar de mãos, o impulso arriscado, o voo desamparado. Mais uma vez o apaixonado baile de voador e base, necessariamente perfeito. Mais uma vez, mais uma e outra... Até que, um dia, uma pega desleixada não se desfaça porque não se consegue dar e seja dada ao salto mortal uma irrefragável oportunidade para fazer jus ao seu nome.

 

           By Sophia

 

  

“ the world - it won't wait for you
it's got its own things to do

 (…)
To my brilliant feat
I make grown men weep
and still my eyes grow oh so cloudy …“

  
música: My Brilliant Feat – Colin Hay

   http://youtube.com/watch?v=pgizT2om-4s



publicado por **** às 19:24
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2 comentários:
De V.A.D. a 3 de Fevereiro de 2008 às 01:58
A confiança não foi abalada, a falha é mero ponto esmaecido, num passado ainda recente. O perdão foi pedido, o olhar disse-o concedido, a serenidade volta de repente. De novo uma trajectória é calculada, desta vez firme e acertada, certeza no presente. O futuro trará mais voos, difíceis, certamente... :-)

Um apaixonado e magnífico bailado aéreo, maravilhosa metáfora de um existência cheia de desafios e trajectórias intuídas...

Desejo-te uma óptima noite e um excelente domingo!

Um beijo... :-)


De **** a 4 de Fevereiro de 2008 às 23:21
“O futuro trará mais voos, difíceis” necessariamente – se eles fossem tão fáceis como nos parecem à distância da plateia não perderiam a magnificência aos nossos olhos confundidos pela luminosidade difusa que entre em ângulos estranhos pelos buracos da tenda, mas perderia toda a paixão para aqueles que se pendura lá em cima, no meio dos aparelhos que insistentemente brilham.
Certamente serão difíceis, podendo alguns revelar-se difíceis demais, impossíveis, fatais. Tentei não só metaforizar uma “existência cheia de desafios e trajectórias intuídas”, mas também o risco que uma vivência mais apaixonada, intensa, dedicada tem – sendo contudo esses “saltos mortais”, os perfeitos e aqueles que deixam na memória um ou outro “mero ponto esmaecido”, que dão sentido à sua vida.
Os trapezistas arriscam a vida para fazer aquilo que amam, arriscam a sua vida porque, para eles, ter de viver com os pés junto ao chão é pior que a morte.

Beijos
E desejos duma noite como o dito bailado, apaixonada e magnífica


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