Sexta-feira, 4 de Abril de 2008
Antiquitera (XIV) - Epílogo

 

     “Brinco com o anel rodando-o no anelar e adivinhando as inscrições que o breu não me deixa vislumbrar. O alinhamento dos planetas havia-me levado a Ta-netjeru, a “Terra dos Deuses”, fazendo-me embrenhar, a austral, nas águas do Nilo, quase até chegar a margens núbias. Num acto de requintada ironia, os astros haviam eleito uma noite em que a abóbada celeste se velara com um manto de densa bruma, passando num passo cuidadoso pelo Nectanebo, a sul do Templo de Ísis, e pelos dois enormes pórticos em “V” na semi-obscuridade. A primeira das seis cascatas lembrava a sua proximidade, com um ruído constante que criava a sensação de, mesmo aqui na ilha de Filae, as minúsculas gotinhas de humidade se fazerem sentir na pele, gelando-me. Dois pesados archotes assinalavam o primeiro pilone, iluminando em conjunto o imenso espelho de água que acrescentava no seu reflexo um pouco de magia à desértica fachada do templo.

     Abeirei-me da sua superfície, mirando-me. Uma vida havia passado – havíamos percorrido o mundo, mostrando nos mais restritos círculos o engenho que havia ficado sem outro nome senão esse, envolvendo-nos em demandas científicas, conhecendo gentes em cada porto; tínhamos sofrido um pouco, sorrido um tanto e, sobretudo, havíamo-nos amado demais; fôramos companheiros, cúmplices e amantes até à sua morte – mas a minha face mal tinha sido tocada pelo tempo. Aparentemente partia como tinha conhecido Hiparco naquela noite em Alexandria, levando o mesmo anel no dedo, o astrolábio, aperfeiçoado, dentro da bolsa e o cabelo claro preso num gancho de âmbar e prata. Não havia sequer trazido o mecanismo, tinha-o doado aos sábios de Rhodes. Contudo, levava no olhar um novo sentimento que não deixaria jamais. Um familiar clarão iluminou a noite. Encaminhei-me vagarosamente para lá.

      Teria saudades.”

 

           Sophia

 

 
     Pouco antes da Páscoa do ano de 1900, uma tempestade desviou de sua rota um barco grego de pescadores de esponjas, fazendo-o chegar à pequena ilha de Antiquitera, a meio caminho entre o Peloponeso e Creta. Quando mergulharam a sessenta e um metros de profundidade, encontraram os restos de um navio romano que havia naufragado por volta do ano 65 aC. Durante ano e meio, pioneiros da arqueologia submarina recuperaram esculturas de bronze e mármore, ânforas e uma miríade de pequenos objectos. Enquanto examinava os despojos em 1902, Valerios Stais, director do Museu Arqueológico de Atenas, descobriu a máquina, em elevado estado de degradação. O aparelho, sofisticadíssimo para a época em que foi construído, constitui uma das maiores maravilhas tecnológicas de toda a história da humanidade.

 

      V.A.D.

 

 
V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Mecanismo (IV) (http://www.newyorker.com/images/2007/05/14/p465/070514_antikythera01_p465.jpg )

 
 

 
“Who dares to love forever? 
When love must die
 
But touch my tears with your lips
Touch my world with your fingertips (…)
 
And we can love forever
Forever is our today (…)

 
Who waits forever anyway?”

 
música: Who Wants To Live Forever - Queen (http://youtube.com/watch?v=Zo52T7uKOJU)

  

 

 

 Tomando a liberdade de me citar:

"Findara a tarefa que nos juntara, mas nascera algo mais"

 

Só te tenho a agradecer V.A.D. ...

 

     

 



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Quinta-feira, 3 de Abril de 2008
Antiquitera (XIII)

 

   “Calo-me. Fica só o som do pausado bater do coração e o enérgico palrar das aves que anuncia o entardecer. O sol já ia baixo, a oeste, iluminando agora o banco. Ambos havíamos viajado por horas pelo meu passado – mais longe do que Hiparco alguma vez teria sonhado ir, mais longe do que eu pensaria vir a levar alguém. Contara-lhe que no Ragnarok me haviam afastado do meu povo, expulso duma terra que habitava há tanto que poderiam chamar sua, que havia sido a guardiã do saber de gerações, tão almejado pelos invasores, e que me haviam deixado somente um anel com inscrições sobre um alinhamento planetário, uma pista para um resgate que perdera importância à medida que a construção do mecanismo que o permitiria singrava. Ele dá-me um beijo terno e devolve-me o Astrolábio, pedindo num sussurro novamente quente que o ensine a olhar as estrelas.

    Findara a tarefa que nos juntara, mas nascera algo mais…”

 

Sophia   
  
 

   “O cronógrafo, em contagem regressiva, registava quarenta e oito unidades de tempo até à abertura do portal, o buraco de verme ainda impenetrável apresentando-se sinalizado por dois imensos radiofaróis, a energia sendo extraída de Musphelheim que brilhava, inexaurível e amarela, seis minutos-luz para lá do gigantesco planeta gasoso, fonte inesgotável de lendas, terra dos gigantes que na antiguidade haviam atemorizado as criancinhas pelas histórias contadas nas noites escuras. Antes de se concentrar na miríade de ponteiros e luzes, pejando o painel do carro espacial, Wotan lançou um derradeiro olhar ao seu mundo natal, o negrume do espaço descontinuado pelo azul da enorme lua a que chamavam de Asgard, berço e morada dos seus. De súbito, a viagem ocorreu, o alinhamento planetário num sistema distante somando a gravitação até que o atalho se desfechasse, o tempo e o espaço desfazendo-se numa singularidade, os parsecs diluindo-se num grânulo sem grandeza aparente, a Terra aparecendo diante de si, tão azul e bela quanto sua por acolhimento.

    A noite descera, havia pouco. A Lua, cheia de fulgor, emitia uma claridade fantasmagórica sobre os montes e os vales onde as sombras se escondiam, a povoação outrora resplendorosa aninhando-se no sopé da montanha onde a fortaleza se arruinara. Segurava a sua lança como um bordão, a face sombreada pelo chapéu de aba larga que lhe não escondia o cabelo cinzento nem o brilho do olhar. Abriu a porta num rompante. Os rostos denotaram primeiro surpresa, depois uma profunda reverência. A sua voz soou, cavada e penetrante, quando quis saber se Freyja se encontrava ali, na que fora a casa de Vanir. Disseram-lhe que não; ofereceram-lhe guarida… Wotan, o Viandante, também chamado de Odin, estava de novo entre os mortais e assim permaneceu por mais duas noites e dois dias, esperando em vão por aquela que talvez tivesse finalmente encontrado Odur… Teve de partir, o alinhamento prestes a desfazer-se contando-lhe os minutos. Um mensageiro chegou, o cavalo esgotado pela urgência, um papiro dizendo-lhe que Freyja estaria no Egipto, quando uma nova conjunção se concretizasse…”

  

V.A.D. 

 
 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Jardim

  

  

“Shows me colours when there's none to see 
Gives me hope when I can't believe 
That for the first time 
I feel love”
 
 
música:
The first time – U2

(http://youtube.com/watch?v=ZW4ouYg89HA) 

 

 

 



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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008
Antiquitera (XII)

 
     “Por um breve segundo, ecoaram as memórias dum plano antigo que antevira a separação. Ele afastara-se, após haver instalado o par de ponteiros da face inferior e o último trio de engrenagens de triangulares dentes de bronze. Agora, uma gota abatia-se sobre a superfície lisa da água, preenchendo a uma cadência de insuperável precisão o silêncio nervoso que, qual ave agoirenta, pairava sobre nós desde o despertar, já tarde adentro. A cada impacto espalhavam-se novas gotículas pelo recipiente de cobre da clepsidra sobre a qual Hiparco se debruçava, ausente, e a cada instante de intervalo eu sofria com a inquietude dos seus gestos, conservando ainda os dedos sobre o mostrador delineado a pigmento negro no cedro, onde os inertes ponteiros em breve principiariam a sua trajectória de circular perfeição. Simulara, no mecanismo, a posição observada, duas noites atrás, dos planetas cuja trajectória através do firmamento iria ser antecipada, a chave sextavada encaixando na perfeição no veio principal, cuidadosamente facetado. Rodei-a, perdendo a conta das voltas, até os ponteiros encontrarem o alinhamento. O calendário marcava trezentos e vinte e quatro. Esses eram os dias que me separavam do possível fim do exílio.
      Outra gota condensou num momento ímpar aquele ápice em que tomei a decisão. Sem esperar pela seguinte, interrompi o trautear na madeira e levei-o para o jardim de estilo grego. Aí, o timbre da minha voz dispersava-se em explicações sobre a sua intrincada prenda, os seus olhos acompanhando cada oscilação do disco de oito polegadas de diâmetro, a mudez sendo mantida nos seus lábios. Eu adverti-o que só poderia servir-se de parte do delicado instrumento quando o sol desse lugar ao firmamento nocturno e pedi-lhe para suspender o astrolábio pelo anel de metal, na face oposta girei a alidade oca até que um único feixe de luz se projectasse na palma aberta da minha mão e tentei precisar o grau que era indicado na escala. Ele deixou descair o braço ao longo do corpo e desfez o alinhamento do aparelho, fitou-me com uma frieza contundente e disse-me que não suportaria mais os meus segredos, ocultações e enganos. Talvez fosse a hora marcada para a sua partida; contudo, ele mantinha-me presa pelo olhar que veementemente suplicava que não a permitisse. Segurei-lhe os pulsos e sentámo-nos num banco sob a sombra duma árvore, respirei fundo e encostámo-nos para deixar fluir toda a minha história, gota a gota…”

 

                 by Sophia

  

 V.A.D. e Sophia em Antiquitera
Imagem: Mecanismo (III) (
http://eumesmo.nireblog.com/blogs/eumesmo/files/calcuastro2.jpg)

 

 

“Talk to me softly
There's something in your eyes
Don't hang your head in sorrow
(…)
Give me a whisper and give me a sigh”

 

Música: Don’t cry – Guns’n’roses

(http://youtube.com/watch?v=_Ns59Bmqpms)
 

 



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Quinta-feira, 27 de Março de 2008
Antiquitera (VII)

 

Segunda Parte

  

 
     “A alvorada anunciou-se resplandecente, os raios solares entrando pela janela entreaberta, a alvura das paredes caiadas reflectindo-os para encher de luz o quarto amplo, o despertar fazendo-se suave e demoradamente numa indolência tão aprazível quanto lasciva fora a noite. Levantei-me, o lençol de linho que me cobria sendo cuidadosamente afastado para a não acordar, a frescura do chão de mármore causando-me um arrepio que me percorreu todo o corpo, num terminante afastamento da sonolência que ainda me envolvia. Dirigi-me à varanda virada a oeste; o ar matinal ainda fresco e a magnífica serenidade azul do Mediterrâneo estendendo-se ante os meus olhos, tinham sempre o condão de me fazer sentir esfomeadamente revigorado. Antes da refeição da manhã, precedendo ainda o despertar daquela incrível mulher que me havia alterado a vida, deixei que as memórias me transportassem a Alexandria e à Biblioteca por onde me perdera entre centenas de milhar de rolos. Permiti que desfilassem mansas, as intensas recordações de um tempo cheio de aprendizagens e de ensinamentos, de teorias e de ensaios, de medições e de observações astronómicas, e contudo tão tremendamente incompleto. Debrucei-me sobre o parapeito, cerrei as pálpebras e revi-me naquela noite de há já três anos, escutando outra vez a pergunta a que respondi com uma peremptória afirmativa, Freyja exercendo sobre mim uma magia que não mais se desvaneceu, querendo saber se deixaria tudo para com ela partir para Rhodes, a premência de dar forma e vida a uma máquina manifestando-se na urgência do pedido.

     Voltei ao presente, o toque suave da sua pele envolvendo o meu tronco desnudo num abraço repentino, os seus lábios beijando-me o ombro, o veludo macio da sua voz deixando-me absolutamente extasiado…”

  

V.A.D.

    

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Rhodes (www.thegreektravel.com/rhodes/photos.html)

 

 

 

"(...) we forget
there's so much life
as morning comes"

 
música: When morning Comes - dishwalla

(http://youtube.com/watch?v=P8EMMkdqBMU)



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Sábado, 22 de Março de 2008
Antiquitera (VI)

 

       “Entre um anel marejado de inscrições, apertava, sob a mesa de pedra, o lenço perfumado com flor-de-lis, numa raiva mal contida por ter mostrado fragilidade, por ter violado a distância que deveria ter mantido com aquele homem de braços atordoantemente quentes. Fingindo uma insólita concentração na tâmara que levava à boca, observava-o. Vendo-o a olhar fixamente as linhas de carvão tentava não abrir uma janela para a sua alma, mas para a imagem que ele construía, engrenagem a engrenagem, na sua mente. Vendo-o a morder o lábio inferior rubro era fácil imaginar as mais de três dezenas de roldanas a girarem umas sobre as outras com um tinido metálico que ecoava pelo seu entendimento, os milhares de dentes a encaixarem numa perfeição talhada num imaterial bronze, o trabalhado desenho dos ponteiros a moverem-se no quarteto de mostradores a cadências matematicamente precisas. Vendo-o a criar uma expressiva ruga na testa adivinhava que tentava deslindar a função do engenho esboçado pelo meu pulso que havia intencionalmente omitido medições, legendas e pormenores. Transferi a minha atenção para a abobada celeste cujo brilho das estrelas não era nem perturbado pela ira do nórdico Thor, nem sequer ofuscado pelo usual astro nocturno do egípcio Thot que hoje mostrava o seu lado negro. Porquanto, o firmamento era o cúmplice que ali partilhava os segredos do maravilhoso mecanismo.

     Hiparco continuava a passar os dedos pelas fibras do papel, deixando as pontas seguir os sulcos das delicadas curvas que eu havia traçado com o movimento demasiadamente carregado. Ela fazia-o com a lentidão de dama que borda um véu de linho, com a perícia de escultor que examina um alto-relevo dum túmulo de faraó, com o afecto de homem que afaga as harmoniosas curvas duma mulher. O pensamento das suas mãos numa carícia pela minha pele nua causou-me um arrepio por todo o corpo, reprimi-o e agarrei ainda com mais força o lenço por baixo da mesa. Só então, ainda sentido a textura suavemente adocicada da tâmara nos lábios húmidos, fiz a pergunta que me havia levado àquela quente noite egípcia...”

 

 

     By Sophia  

 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Mecanismo (II) (www.bilbaoblogs.com/res/escepticos/Antiquitera.jpg)

 

 

  
“And the night came on
It was very calm
I wanted the night to go on and on

We were (…) in Egypt”

música: Night come on – Leonard Cohen (http://youtube.com/watch?v=Of767QsIMt4)
 

 

 

Fim da Primeira Parte

(Por ausência de um dos intervenientes na parceria,

o conto será retomado assim que possível)

  



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Sexta-feira, 21 de Março de 2008
Antiquitera (V)

 

“A refeição foi frugal, as ostras e os peixes, as aves e as variadas carnes de caça soberbamente apaladadas sendo apenas provadas, numa inventada justificação para cada momento com Freyja, a sua presença parecendo libertar-me da necessidade de alimento, a sua voz serenamente feminina e simultaneamente firme envolvendo-me num universo tão dissemelhante daquele em que sempre havia vivido, os demorados gelos e os tumultuosos mares setentrionais descritos com perícia, as imagens formando-se na minha mente como se estivesse perante a magnitude de tais cenários. Falou-me de um tempo em que a sua estirpe governava o cume do mundo, dos dias em que a primavera fugia para norte, a neve transfigurando-se na água que enchia os rios, os botões explodindo em folhas e flores num ciclo interminável de renascimento da vida, um indescritível sorriso iluminando-lhe o rosto, a sua beleza ou o vinho fazendo-me sentir um estranho ruborizar das faces, um fascínio indizível despontando em mim…

As horas entravam noite adentro, os figos e as nozes acompanhando o hidromel bebericado entre frases e descrições, o semblante subitamente carregado, os olhos marejando-se-lhe de lágrimas, a recordação de uma violenta batalha entre potestades fazendo-a irromper em soluços. O Ragnarok havia posto cobro à influência da sua família e determinado o seu exílio em terras mais meridionais. Num impulso incontido, abracei-a, o toque fazendo-a acalmar-se de imediato. Recompondo-se, limpou com um fino lenço de linho as lágrimas que pareceram gotas de ouro, certamente a luz amarelada dos archotes criando uma ilusão. Desenrolou o papiro que havia trazido. Nele, insuspeitáveis conhecimentos apareciam desenhados com geométrica precisão…”

 

    V.A.D.

 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Mecanismo (www.ams.org/images/smallgears.gif)



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Quinta-feira, 20 de Março de 2008
Antiquitera (IV)

  

" Mais do que a cascata dourada que me caía sobre os ombros e que a candura da pele que os cobria, nesta “Pérola do Mediterrâneo” onde as tranças de reflexos lápis-lazúli das sacerdotisas do templo se enleavam nas alvas madeixas de frágil seda dos anciãos ou na tisnada musculatura dos escravos de negra carapinha, o que mais fazia virar os rostos de mil etnias em minha direcção era a cadência do andar. Ao lado daquele homem, quase um estranho, serpenteava em movimentos precisos de dançarina por entre a multidão, num passo mais decidido, célere, mais largo do que o apropriado uma dama de bem. Ao ritmo do fluir das pregas da túnica cuja bainha ia flutuando livremente, subindo um pouco além da decência, fluíam as conversas plenas de trivialidades, suplantando a necessidade do mais rigoroso secretismo, a suprema urgência dos assuntos de que fora feita guardiã. A ele contei-lhe que viera de Rhodes, cidade cuja grandeza havia decaído há séculos com o Colosso, tendo trocado há mais anos do que me lembrava o mar Báltico pelo Mediterrâneo. A mim confiou-me qual o trabalho que lhe consumia as horas por entre as numerosas estantes também mandadas erguer por Ptolomeu, sem saber que o havia seguido de perto por sete sóis. Preparava-me para virar a astral, quando me segurou veementemente um pulso, misturando-se o toque frio da prata e o rugoso do âmbar da pulseira com o quente dos seus dedos macios de escriba. Disse-me que o ocaso passara, prometeu-me que iríamos à Biblioteca na aurora seguinte, convidou-me para partilhar com ele a refeição naquela noite de lua nova. Consenti e virei então as costas à mais brilhante estrela que já subira ao firmamento egípcio, Souped, a chegada de Ísis anunciada por uma resplandecência que era contudo insuficiente para distinguir tom de cabelo ou pele e muito menos para iluminar os mistérios enrolados na vareta de marfim que transportava...."

  

      By Sophia 

  

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Freyja e Hiparco   (  http://fotos.sapo.pt/yw0ulyONuLNHOMmJ3BH9/)

   

 

“Strangers in the night, two lonely people
We were strangers in the night
Up to the moment
When we said our first hello.”

   

música: Strangers in the night – Frank Sinatra   (http://youtube.com/watch?v=LAEQzVv_Itc)  



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Terça-feira, 18 de Março de 2008
Antiquitera (III)

 

   “Os meus olhos perscrutavam a multidão ainda fervilhante de actividade, homens a carregar e a descarregar, a consertar e a preparar, a levar e a trazer, condutores de burros acarretando a lenha que se transformaria no fogo luminoso, um chicote a precipitar-se sobre as espaldas de um escravo que laborava com a lentidão indesejada pelo amo, o rumor cacofónico rolando ao meu encontro numa mescla de conversas e risos, de gritos e regateios, de relinchos e de bater de cascos naquele chão que Alexandre mandara empedrar. Por todo o lado se viam mercadores, as suas roupas ostentadoras de riqueza, as cores vibrantes contrastando com a tez escurecida pelo sol dos que apenas usavam tangas ou ofuscando os cafetãs desbotados e remendados dos marinheiros e caceteiros das docas. Avultando-se, esbelta e alva, os cabelos de um inaudito amarelo doirado, a estrangeira estendia um braço desnudo em minha direcção, num aceno de uma candura incomparável. Inexplicavelmente, uma espécie de hipnose tomou-me por completo, os ruídos silenciando-se misteriosamente, a minha vista fixando-se na profundidade azul daqueles lúzios impossíveis. Expulsando da mente o abalo, dirigi-me a ela, os passos inseguros disfarçados pelo cumprimento que lhe dirigi em grego, uma vénia correspondida pelo curvar airoso do seu corpo jovem, a clareza e perfeição da sua voz anunciando-a como Freyja, irmã de Fricka, cunhada de Wotan e princesa da Suécia, a ausência de qualquer indício de sotaque revelando uma extraordinária erudição. Caminhámos ao longo do molhe, ela referindo-se às suas indagações sobre a Biblioteca e sobre o trabalho desenvolvido por mim e pelos meus antecessores, eu questionando-a sobre as indubitáveis peripécias de tão longa viagem…”

 

V.A.D.

 

 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Eunostos (http://cache02.stormap.sapo.pt/fotostore01/fotos//e8/9b/af/1833813_0Lw2Y.jpeg)

 



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Segunda-feira, 17 de Março de 2008
Antiquitera (II)

  

    “Uma abafada lufada de ar quente arrancou-a do estado de letargia que a ociosa observação das sôfregas movimentações da tripulação dum dahabeeyah que atravessava a primeira comporta do Heptaestádio - com a alvura das velas recolhida num emaranhado de cordas e roldanas - a mergulhara. Os indeléveis traços dum saudosismo inusitado das robustas embarcações que povoam os mares tempestuosos, frios, nórdicos duma primeira infância longínqua dissiparam-se no clima fervilhante do porto. Misturavam-se as gentes numa confusão de linhos, algodões e napa, hibridavam-se os cheiros de cada canto do mundo que se prendiam à pele dos transeuntes, fundiam-se todos os idiomas conhecidos mais os que eram criados ali mesmo na marginal da mais povoada cidade do mundo. Ela, num esforço inaudito para não se dispersar, procurava a figura esguia do brilhante homem letrado cujo nome – Hiparco - havia lido até à exaustão, patente num maravilhoso conjunto de prometedoras obras que a haviam acompanhado nas últimas luas. Tentava ainda a custo repudiar o sentimento de admiração que a poderia distrair da tarefa da qual havia sido incumbida, quando finalmente o viu, de olhos aéreos perscrutando a multidão.

      Arranjou a túnica deixando propositadamente uma das alças escorregar-lhe pelo ombro, desnudando o início dum colo prometedoramente alvo, apertou entre os dedos finos o rolo de papiro que sabia valer mais que a sua vida, sentindo na palma a sua textura reconfortantemente rugosa, e esticou outro braço no sentido do ombro do homem cuja nuca povoada de caracóis negros a fitava, desprendendo-se do frágil gancho, numa outra lufada, uma madeixa quase da cor do sol poente e da chama que tomara o seu lugar no Farol de Alexandria...”

  

                         by Sophia

     

  

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

Imagem: Alexandria

(http://cache01.stormap.sapo.pt/fotostore02/fotos//15/00/8d/1830631_BmZYl.bmp)

  



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Domingo, 16 de Março de 2008
Antiquitera (I)

   

                          Prefácio

 

       Foi há pouco mais de um ano que entrei em contacto com este fabuloso mundo da blogoesfera, que me tem surpreendido de forma muito positiva, seja pela aprazibilidade de alguns lugares que vou descobrindo e visitando com regularidade, seja pela extraordinária qualidade de alguns textos. Os comentários fazem dos blogs lugares abertos, trazendo uma enorme riqueza e complementaridade àquilo que se vai escrevendo. Mas, pode-se ir mais além, as parcerias representando experiências deveras interessantes. Nesse sentido, enderecei um convite à Sophia do Flip Side, para que escrevêssemos um conto. Espero que o resultado seja do agrado de quem gentilmente nos lê…

   

   

  

        “O sol ia baixo, a oeste, descendo sobre os mastros despidos dos navios de grande calado que enchiam o Eunostos de marinheiros e de fazendas de toda a sorte, as riquezas do mundo conhecido sendo comercializadas numa vozearia que enchia de vida um final de dia excessivamente quente, o ar pesado de humidade e fumo causando aquela ténue mas indissipável impressão de desconforto de todas as mediterrânicas tardes estivais. À minha frente, separando o porto mercantil dos arsenais e das guarnições militares, o Heptaestádio estendia-se mar adentro, ligando o continente à ilha onde, havia mais de um século, tinha sido erguida a impressionante obra de Sóstrato de Cnido a mando de Ptolomeu, 300 côvados de altura, sobre a base quadrada de erguendo-se a esbelta torre octogonal, no topo levantando-se um cilindro para uma cúpula aberta onde o fogo que iluminava o farol era mantido noite e dia. Lá no alto, a magnífica estátua de Poseidon velava, infatigável, pela tranquilidade das águas de um azul profundo, o mármore reluzente captando as tonalidades do crepúsculo. Estuguei o passo, o papiro entregue pelo meu secretário referindo o pôr-do-sol como a hora do encontro, a misteriosa assinatura revelando um nome feminino definitivamente estrangeiro, a premência do convite deixando-me a arder de curiosidade…”

 

       V.A.D.

 

 

V.A.D. e Sophia em Antiquitera

 

Imagem: Farol de Alexandria

       (www.tresd1.com.br/Contest/c07-civilizacoes/Pedro-Miguel-Varanda.jpg)

 



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